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Boletim | Fevereiro/2017

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Neurofeedback: Panorama geral, técnicas e aplicações

Cada vez mais tem se ouvido falar em neurofeedback e nos resultados alcançados com essa intervenção. Nos últimos anos, o número de pesquisas tem aumentado consideravelmente, e é possível encontrar artigos relatando melhoras nas mais diversas áreas, incluindo dificuldades atencionais (Arns et al., 2009; Micoulaud Franchi et al., 2016)), dor, ansiedade (Gomes et al., 2016a), depressão (Dias e van Deusen, 2011), alto rendimento, esportes e assim por diante (Dias, 2010). Se digitarmos “neurofeedback” na maior base de dados de citações e resumos indexados na área médica, a MEDLINE/ PUBMED, é possível ver que a quantidade de pesquisas publicadas nos primeiros 50 anos é menos que 1/5 daquelas publicadas em 2016. No Brasil, no entanto, neurofeedback ainda é uma grande (e pouco conhecida) novidade. Mas afinal, o que é neurofeedback?

O termo “neurofeedback”, do inglês, vem da união do prefixo “neuro”, referindo-se ao cérebro, e “feedback”, que pode ser traduzido como retroalimentação; ele compreende uma das modalidades de biofeedback, termo guarda-chuva usado para se referir às técnicas de retroalimentação biológica (Gomes, Coghi e Coghi, 2014). Em outras palavras, o neurofeedback é uma técnica em que sinais cerebrais são monitorados e essa informação é utilizada pelo próprio usuário para que ele aprenda a se autorregular (Larsen, e Sherlin, (2013). De modo geral, o feedback é fornecido através de recursos digitais, como notas musicais, imagens ou vídeos, que são modulados pela atividade cerebral registrada. Assim, o neurofeedback é uma técnica que, baseada no princípio do condicionamento operante, leva à modificação de padrões cerebrais através do processo de aprendizagem (Símon , 1996; Sherlin et al., 2011). Os padrões a serem modificados através do treinamento com neurofeedback são selecionados de acordo com os objetivos a serem alcançados, podendo estar associado a alguma patologia, comportamento disruptivo ou até mesmo melhora na performance.

Em função da resposta biológica mensurada, os procedimentos e métodos associados ao treinamento podem variar. A seguir, são apresentadas as modalidades de neurofeedback mais comumente utilizadas (para uma revisão mais detalhada, veja Hammond (2011).

· Neurofeedback Eletroencefalográfico (EEG neurofeedback): É a modalidade mais utilizada em settings clínicos e também com maior número de publicações científicas. O feedback é fornecido e função da modulação voluntária dos padrões de ativação corticais, medidos em termos de frequências de ondas. Pode utilizar 1 ou mais eletrodos, avulso ou conectados a uma touca, posicionados na caixa craniana em função da região a ser treinada, de acordo com o Sistema Internacional de Posicionamento de eletrodos 10-20 ou 10-10. As frequências de ondas comumente utilizadas são: - Delta (0-4hz): associado ao sono profundo; - Teta (4-8hz): baixo nível de alerta atencional e sonolência; - Alfa (8-12hz): estado atencional de vigília relaxada; - Beta (13-30hz): estado de alerta, atenção concentrada e processamento cognitivo; as frequências entre 20 e 30 estão relacionadas com excesso de alerta mental e estresse; - Gama (30-50hz): padrão menos utilizado em treinamento de frequência, pois sua definição ainda é controversa; alguns pesquisadores argumentam que está associado a processamento cognitivo e aprendizagem com consciência atencional; (Gomes et al., 2016b).

Dentre as boas práticas, recomenda-se a realização de uma avaliação com a técnica de eletroencefalografia quantitativa (qEEG), que possibilita a criação de mapas de ativação cortical, permitindo a definição de protocolos personalizados para cada pessoa.

· Neurofeedback por Potenciais Corticais Lentos (SCP neurofeedback - Slow Cortical Potential): O SCP também se baseia na atividade elétrica cerebral, mais especificamente nos potenciais positivos ou negativos da polarização do EEG.

· Neurofeedback por Escore-Z: No neurofeedback por Z-score a atividade elétrica cerebral é processada por um software e comparada continuamente durante o treinamento com uma base de dados normativas, com o objetivo de aproximar os padrões desviantes da “norma”.

· Neurofeedback por Tomografia Eletromagnética de Baixa Resolução(LORETA - Low-Resolution Electromagnetic Tomography): A atividade elétrica do cérebro é coletada e processada por software, de modo a estimar as regiões que estejam gerando determinado padrão de ativação. Assim, o feedback é o feedback é fornecido com base nesses dados.

· Neurofeedback Hemoencefalográfico (HEG neurofeedback): A dinâmica sanguínea cerebral é monitoramento e utilizada como input para o neurofeedback. Duas são as modalidades: o HEG de espectroscopia por infravermelho próximo (do inglês Near InfraRed, ou NIR) e HEG por infravermelho passivo (do inglês Passive InfraRed, ou PIR) (Toomim e Carmen, 2009; Dias et al., 2012; Para revisão sobre essa modalidade em português, ver Londero e Gomes, 201411 ). · Neurofeedback por Espectroscopia Infravermelha Próxima (NIRS neurofeedback - Near Infrared Spectroscopy): A concentração relativa de hemoglobinas oxigenadas e desoxigenadas na superfície cortical são mensuradas e utilizadas para o feedback (Barth et al., 2016). · Neurofeedback por Ressonância Magnética Funcional (fMRI neurofeedback): Essa técnica é realizada enquanto o participante tem o seu cérebro scaneado pelo equipamento de ressonância magnética funcional, com o objetivo de possibilitar a autorregulação de padrões subcorticais profundos (Young et al., 2014). · Sistema de Neurofeedback de Baixa-Energia (LENS - Low-Energy Neurofeedback System): nessa técnica, um sinal eletromagnético sutil é utilizado para alterar as ondas cerebrais do paciente. Por utilizar um sinal eletromagnético e não se basear no treinamento operante, alguns autores não consideram LENS uma modalidade de neurofeedback.

Dentre as aplicações, destaca-se a sua eficácia no tratamento do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), sendo atualmente considerada uma técnica nível 1, ou intervenções com melhores suporte, pela Academia Americana de Pediatria (Veja mais no site da Internacional Sociedade de Neurofeedback e Pesquisa: http://www.isnr.org/catalog- 1/if5zb3hx69/American-Academy-of-Pediatrics-lists-Neurofeedback-as-Level-1-ResearchBest-supported-Interventions). Pesquisas acerca da eficácia no Transtorno do Espetro Autista e em Transtornos de Aprendizagem são promissores e sugerem progressos, no entanto o número de estudos clínicos controlados é menor do que os realizados com TDAH.

Em adultos, as pesquisas com neurofeedback indicam melhora especialmente em transtorno de ansiedade, mesmo quando comorbidade. Pesquisas com Transtorno Obcessivo-Compulsivo (TOC) também tem relatado resultados otimistas, levando à redução da ansiedade e do TOC propriamente dito. Já na depressão, sugere-se maiores resultados em quadros leves a moderado (Walker, Lawson e Kozlowski, 2007). Na esquizofrenia, protocolos personalizados com base no qEEG foram utilizados em 51 pacientes, com respostas promissoras em escalas psiquiátricas e cognitivas (Surmeli et al., 2012). Os efeitos das técnicas de autorregulação também tem sido estudadas na performance esportiva, com trabalhos indicando melhor na performance, foco e autocontrole e redução de estresse (Rijken et al., 2016; Carvalho, Assed e Gomes, 2017).

Frente à diversidade de técnicas e aplicações, pode haver um viés de que o neurofeedback “serve para tudo”. No entanto, deve-se ter muito cuidado com essa linha de pensamento generalista. O neurofeedback tem sua especificidade enquanto técnica e, como todo tratamento, apresenta limitações. Ela exige treinamento e repetição, requisitando um determinado número de sessões para que a aprendizagem, e consequentemente as alterações comportamentais, se consolidem. A quantidade de sessões pode variar de acordo com características pessoais e o objetivo do treinamento, sendo reportado um média de 30 sessões (variando entre 20 e 50) para ganhos mais duradouros. Além disso, deve-se levar em considerações limitações biológicas que podem reduzir o efeito da técnica, como alterações hormonais (ex. associação entre hipotireoidismo e transtornos de humor) e lesões cerebrais (congênitas ou adquiridas), dentre outras.

Assim, o neurofeedback apresenta-se como uma técnica de intervenção promissora, aliando os avanços tecnológicos ao desenvolvimento neurocientífico. Sua aplicabilidade tem sido cada vez mais explorada, e os novos estudos, com maior rigor metodológicos, tem contribuído para a melhor compreensão dos seus mecanismos de ação e efeitos no comportamento humano.

 

 

Referências

Arns M, de Ridder S, Strehl U, Breteler M, Coenen A. (2009). Efficacy of neurofeedback treatment in ADHD: the effects on inattention, impulsivity and hyperactivity: a meta-analysis. Clinical EEG and neuroscience, 40(3):180-189.

Barth, B., Strehl, U., Fallgatter, A. J., & Ehlis, A. C. (2016). Near-Infrared Spectroscopy based Neurofeedback of Prefrontal Cortex Activity: A Proof-of-Concept Study. Frontiers in Human Neuroscience, 10.

Carvalho, S. de S. A., Assed, M. M,; Gomes, J. S. (2017). HEG Biofeedback Training for Olympics Athletes. Poster at 19th BFE Meeting, April 2017, Aveiro, Portugal.

Dias, Á. M. (2010). Tendências do neurofeedback em psicologia: revisão sistemática. Psicologia em Estudo., p.811-820.

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Gomes, J. S., Ducos, D. V., Akiba, H., & Dias, Á. M. (2016a). A neurofeedback protocol to improve mild anxiety and sleep quality. Revista Brasileira de Psiquiatria, 38(3), 264-265.

Gomes, J. S., Ducos, D. V., Akiba, H., & Dias, Á. M. (2016b). Neurofeedback: Aspectos Gerais e Aplicações na Psiquiatria. In: Shiozawa, P., da Silva, M. E., Ribeiro, R. B., Alberto, R. L., Cordeiro, Q. Neuromodulação em Psiquiatria. (pp. 163-174). Atheneu Ed.

 Larsen, S., & Sherlin, L. (2013). Neurofeedback: an emerging technology for treating central nervous system dysregulation. Psychiatric Clinics of North America, 36(1), 163-168.

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Londero, I., & Gomes, J. S. (2014). Neurofeedback hemoencefalográfico (HEG): possibilidades de aplicações no campo da saúde. Ciências & Cognição, 19(3).

Micoulaud Franchi, J., Geoffroy, P., Fond, G., Lopez, R., Bioulac10, S., & Philip11, P. (2016). EEG Neurofeedback treatments in 44 children with ADHD: An d meta-‐analysis of Randomized Controlled Trials. Neurofeedback in ADHD.

Rijken, N. H., Soer, R., de Maar, E., Prins, H., Teeuw, W. B., Peuscher, J., & Oosterveld, F. G. (2016). Increasing Performance of Professional Soccer Players and Elite Track and Field Athletes with Peak Performance Training and Biofeedback: A Pilot Study. Applied Psychophysiology and Biofeedback, 41(4), 421-430.

Símon, M. A. Biofeedback. In Cabalo V. E., Manual de Técnicas de Terapia e Modificação do Comportamento. São Paulo: Grupo Editora Nacional. 1996. p. 335-358).

Surmeli T, Ertem A, Eralp E, Kos IH. Schizophrenia and the efficacy of qEEG-guided neurofeedback treatment: a clinical case series. Clinical EEG and Neuroscience 2012; 43(2):133-144.

Toomim, H., & Carmen, J. (2009). Hemoencephalography. Photon-Based Blood Flow Neurofeedback. In Introduction to Quantitative EEG and Neurofeedback (pp. 167–194). Elsevier Inc.

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