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Boletim | Julho/2017

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Avaliação Psicológica e Avaliação Neuropsicológica

     A avaliação, empreendida com fins profissionais, consiste na melhor descrição possível, por meio de técnicas e teorias particulares, para um dado momento, dos aspectos relevantes de uma pessoa, almejando responder a questões específicas (Tavares, 2003). Realizar um processo de avaliação está longe de ser tarefa trivial e, talvez, se constitua em uma das competências mais fundamentais a ser desenvolvida na formação superior para as áreas de saúde. Há, contudo, muitas dúvidas e equívocos, entre estudantes e profissionais, quando se trata das semelhanças e das diferenças entre a avaliação psicológica e a neuropsicológica. Afinal, estamos falando da mesma coisa? Se não, em que precisamente os dois processos se diferem? Este texto vai tentar lançar luz a estas perguntas, sem perder de vista que o que está expresso aqui é somente uma maneira de pensar, que pode não ser necessariamente compartilhada.

     Caracterizando a Avaliação Psicológica e a Avaliação Neuropsicológica

     Partindo de uma análise mais ampla, a avaliação psicológica (AP) pode ser vista enquanto área da Psicologia e enquanto atividade levada a cabo em contextos de prática profissional. Como área da Psicologia, a AP pode ser considerada como uma das mais antigas da ciência psicológica. Para além da visão simplista que muitas vezes perpassa a compressão de outros profissionais, de estudantes de psicologia e dos próprios psicólogos, a avaliação psicológica não pode ser entendida como uma área técnica, dedicada exclusivamente à produção de instrumentos para uso por psicólogos (Primi, 2010). A AP é uma área intrinsicamente responsável por possibilitar que teorias psicológicas possam ter seus postulados teóricos testados, falseados ou corroborados, através da operacionalização destes em eventos observáveis (Primi, 2003). Contudo, é enquanto processo que a avaliação psicológica se confunde com a avaliação neuropsicológica.

     A AP constitui-se em um processo dinâmico e sistemático de conhecimento a respeito do funcionamento psicológico das pessoas, gerado a partir de demandas e perguntas específicas, de maneiras a orientar ações e decisões futuras (Primi, 2010). O uso e as aplicações da AP são, na atualidade, os mais variados, incluindo, os contextos de consultório, escolar, hospitalar, organizacional, jurídico, esportivo, dentre outros. Já a avaliação neuropsicológica (AN) é uma atividade que emerge dentro do campo da Neuropsicologia e que consiste no método de investigar as funções cognitivas e o comportamento, relacionando-os com o funcionamento normal ou deficitário do sistema nervoso central, com vistas a possibilitar o diagnóstico, a determinação da natureza ou etiologia dos sintomas, a gravidade das sequelas, o prognóstico, a evolução do caso e oferecer bases para a reabilitação (Haase et al., 2012). Considerando que a Neuropsicologia surgiu do atendimento a pacientes, a AN está majoritariamente presente em consultórios, ambulatórios e hospitais (MäderJoaquim, 2010). 

Avaliação psicológica e a neuropsicológica: convergências e divergências 

     Tanto a avaliação psicológica quanto a avaliação neuropsicológica consistem em processos complexos que envolvem a utilização de diversas ferramentas, tais como entrevistas, anamneses, escalas, observação em contexto clínico e em situações cotidianas, tarefas e instrumentos formais para investigação de diversos aspectos do funcionamento individual. Estes instrumentos formais, que seguem procedimentos sistemáticos para sua construção e utilização, são geralmente conhecidos como testes psicológicos. Embora os testes psicológicos sejam ferramentas importantes e recorrentes em processos de avaliação psicológica, a AP não se resume a eles. Há muitos profissionais que realizam processos inteiros de avaliação psicológica sem recorrer a nenhum teste psicológico. Isto porque não há testes disponíveis e/ou confiáveis para tudo o que se quer avaliar e tampouco todo e qualquer aspecto do funcionamento individual depende unicamente de um teste para ser avaliado de forma confiável e clinicamente útil.

     Aqui, faz-se importante uma ressalva: o processo de avaliação psicológica não se baseia somente no uso de testes psicológicos. Porém, quando eles estão presentes só podem, por lei (Lei nº 4.119/62) serem utilizados por psicólogos. Esta é uma diferença entre a AP e a AN: como nem todo especialista em Neuropsicologia possui formação superior em Psicologia (a Neuropsicologia é por definição um campo de atuação e pesquisa interdisciplinar), nem todo especialista em Neuropsicologia pode utilizar testes psicológicos em um processo de AN, ao passo que todo e qualquer psicólogo tem permissão legal para uso de testes psicológicos em um processo de AP, mesmo não tendo formação adequada para tal uso.

     Outro ponto que merece atenção é o uso de análises quantitativas e qualitativas. Nas primeiras, a atenção se volta para comparação do indivíduo com um grupo normativo ou de critério (abordagem nomotética); ao passo que na segunda, não se objetiva verificar a performance do indivíduo relativa ao grupo, mas sim em sua própria performance em momentos e situações diferentes (abordagem idiográfica) (Haase, Gauer & Gomes, 2010). Frequentemente se advoga que a AN extrapola a questão quantitativa para incluir complementarmente a análise qualitativa. Esta é uma assertiva válida também para AP. A avaliação psicológica é caracterizada por uma diversidade de estilos de pensamento que dão origem a diferentes práticas dentro da área (Primi, 2010). Há profissionais que primam pelo uso de abordagens mais quantitativas, outros que utilizam quase que exclusivamente análises qualitativas e há outros que fazem uso de ambas as abordagens de maneira complementar. Inclusive, muitos testes psicológicos possibilitam a utilização simultânea das abordagens nomotéticas e idiográficas. Pode-se citar como exemplo o WISC. Ele é tradicionalmente um instrumento de avaliação quantitativa da inteligência. Contudo, a análise dos resultados pode ser estendida para muito mais do que isso (Tavares, 2003). Pode-se identificar o tipo de erros, respostas com conteúdo bizarros nas subprovas verbais, tipo de estratégias na solução de tarefas de aritmética e memória de trabalho, habilidades metacognitivas etc. Parece, pois, plausível supor que tanto a AP quanto a AN fazem uso de análises quantitativas e qualitativas em seu processo diagnóstico. A diferença é que na AN o uso de ambas as abordagens não é somente complementar, mas obrigatório. 

     Adicionalmente ao citado nos parágrafos acima, as demandas e a interpretação dos achados podem diferir entre a avaliação psicológica e neuropsicológica. No que se refere às demandas, para a AN elas são eminentemente clínicas e, em geral, direcionadas para diagnóstico ou detecção precoce de sintomas, para elaboração de programas de reabilitação, acompanhamento de procedimentos cirúrgicos que possam resultar em insultos ao sistema nervoso central (SNC) e consequente alterações cognitivas e comportamentais e procedimentos legais que envolvam documentar incapacidades mentais de pessoas com lesões ou doenças que afetem o SNC (Mäder-Joaquim, 2010). Não obstante a AP possa ser decorrente de demandas clínicas para diagnóstico, detecção precoce de sintomas e preparação psicológica para realização de procedimentos cirúrgicos (por ex., cirurgia bariátrica), muitas das demandas que chegam para AP não são clínicas. Elas podem ser resultantes de uma necessidade de autoconhecimento (por ex., orientação profissional) ou de tomada de decisão em vários contextos (por ex., trânsito, esporte, porte de armas ou organizações). 

     Na área clínica, tanto a AP quanto a AN se pautam em um trabalho investigativo, no qual o enfoque principal torna-se o teste de hipóteses, o diagnóstico, prognóstico e indicação de condutas terapêuticas. Todavia, o teste de hipóteses e o processo inferencial e interpretativo na AN é realizado em função de modelos neurocognitivos, de correlação estrutura-função, ou seja, os resultados são interpretados sempre a partir de correlatos entre as funções cognitivas, executivas e os comportamentos com o sistema nervoso central (Haase et al., 2012). Teorias psicológicas embasam as hipóteses e as interpretações dos achados de processos de AP na área clínica, mas não em todos os contextos. Um exame psicológico para obtenção de carteira de habilitação prescinde de tal sofisticação. A natureza do processo investigativo em AN pode também estar associado ao tipo de teste utilizado neste processo. Testes psicométricos que avaliam funções cognitivas (memória, atenção, linguagem) são comuns aos dois tipos de avaliação. Entretanto, testes psicológicos expressivos (gráficos ou não), projetivos ou mesmo testes psicométricos de personalidade e interesses não fazem parte do rol de ferramentas utilizadas em processos de avaliação neuropsicológica. Isto porque embora estes testes estejam baseados em teorias psicológicas, não é possível fazer inferências lineares acerca da relação de construtos, tais como a personalidade, com estruturas cerebrais específicas. 

Conclusão

     As avaliações psicológica e neuropsicológica constituem em processos fundamentais para a prática de profissionais de saúde, contribuindo não apenas para o diagnóstico, mas também para o desenvolvimento de programas ou estratégias interventivas adequadas e individualizadas. Ambas são dinâmicas, multifásicas, teoricamente embasadas e utilizam-se de testes psicológicos como uma de suas ferramentas de apoio diagnóstico. Entretanto, há diferenças importantes entre os dois processos no que se refere às diretrizes legais para uso de testes e formação profissional, aos tipos de testes utilizados, às demandas de encaminhamento, contextos de utilização e aos modelos teóricos que embasam o raciocínio inferencial envolvido nestes processos. Não obstante às convergências e divergências, faz-se importante destacar que profissionais envolvidos com cada uma delas devem estar sempre atentos à necessidade de formação de qualidade, atualização constante, postura ética e humana e, acima de tudo, à falibilidade do processo de avaliação e de sua natureza contextual e social. 



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