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Boletim | Julho/2017

Relato de Pesquisa

Análises de clustering e switching em tarefas de fluência verbal: desempenho de pacientes com lesões cerebrovasculares

     Tarefas de fluência verbal (FV) são amplamente utilizadas em contextos clínicos e experimentais para avaliar funções neuropsicológicas de linguagem, memória e funções executivas (Lezak et al., 2004). Consistem em evocar o maior número de palavras de acordo com um critério ortográfico (FVO) ou semântico (FVS) em um período determinado, geralmente de um minuto, medindo-se o número total de palavras produzidas (Strauss et al., 2006). Para além do escore total, Troyer et al. (1997) sugerem a dissociação de componentes de clustering e switching como medidas dos processos cognitivos subjacentes ao desempenho geral na FV.

     Clustering refere-se à evocação de palavras pertencentes a uma mesma subcategoria semântica ou fonêmico-ortográfica, gerando duas medidas: o número de clusters e o tamanho dos clusters evocados. O componente de Switching corresponde às trocas entre as diferentes subcategorias. Enquanto que o uso de estratégias de clustering é relacionado à memória semântica e a maior ativação do lobo temporal, switching associa-se ao funcionamento cerebral frontal e a funções executivas (Troyer, Moscovitch, Winocur, Alexander, & Stuss, 1998). Dissociações destes componentes são bastante estudadas na literatura, especialmente em pacientes com Alzheimer, doença de Parkinson e lesões focais (Clark et al., 2014; Troyer, Moscovitch, Winocur, Alexander et al., 1998). No entanto, esses processos ainda são pouco investigados com pacientes pós Acidente Vascular Cerebral (AVC), uma das causas de maior morbidade no Brasil e no mundo (Ministério da Saúde, 2013; World Health Organization, 2014). Este estudo teve como objetivo comparar o desempenho de pacientes pós AVC e controles saudáveis em duas tarefas de FV (fonêmico-ortográfica e semântica) em medidas de clustering e switching. A amostra (N = 40) foi dividida em três grupos: 1) pacientes com lesão no hemisfério cerebral esquerdo (LHE) (n = 10); 2) lesão no hemisfério cerebral direito (LHD) (n = 10); e 3) controles pareados por sexo e escolaridade aos pacientes (n = 20). Todos os participantes apresentavam dominância manual direita e eram monolíngues e falantes do português brasileiro. Os critérios de exclusão contemplaram presença de diagnóstico neurológico (além do AVC nos grupos clínicos) ou psiquiátrico, histórico de uso abusivo de drogas ilícitas ou álcool e dificuldades de visão ou audição não corrigidas.

     Os participantes apresentavam compreensão da linguagem preservada (avaliada pela Bonston Diagnostic Aphasia Examination) e foram avaliados com tarefas de FVO (letra F) e FVS (categoria animais) do Instrumento de Avaliação Neuropsicolinguística Breve para Afásicos Expressivos NEUPSILIN-Af (Fontoura et al., 2011). As variáveis dependentes utilizadas foram: número total de palavras evocadas corretamente, número de clusters, média do tamanho dos clusters e número de switches, analisadas por dois juízes especialistas. A amostra não apresentou distribuição normal no desempenho das variáveis dependentes, realizando-se análise não paramétrica de KruskalWallis para comparação de grupos independentes, adotando-se um valor de significância de 5%. As análises indicaram que na FVO o grupo controle apresentou melhor desempenho do que o grupo LHE no total de palavras, número de clusters e número de switches (p < 0,05). O grupo LHD apresentou desempenho próximo ao dos controles neste tarefa (p > 0,05). Na tarefa de FVS os resultados foram semelhantes, mas no número de clusters tanto LHD como LHE obtiveram desempenho inferior ao do grupo controle (p<0,05).

     Há evidências de que o componente de clustering é influenciado pelo processamento léxico-semântico, relacionado à capacidade de compreender e evocar palavras (Troyer et al., 1998). O desempenho inferior em número de clusters apresentado pelo grupo LHD na tarefa de FVS pode ter ocorrido em função do acesso lexical prejudicado em pacientes com lesão neste hemisfério cerebral (Pagliarin, Sarmento, Müller, Parente, & Fonseca, 2012). Devido a esse déficit, pacientes com LHD tendem a apresentar reduzida capacidade de estabelecer relações semânticas entre palavras (Abusamra, Côté, Joanette, & Ferreri, 2009), o que explicaria a razão pela qual a mesma dificuldade não foi observada na tarefa com critério fonêmico-ortográfico. Ressalta-se que a dificuldade de acesso ao léxico-semântico dificilmente seria percebida através da análise do número total de palavras evocadas em FV sem a análise qualitativa complementar. Alterações na comunicação estão presentes em apenas 50% dos pacientes com LHD (Fonseca et al., 2006). O desempenho semelhante do grupo LHD em relação ao grupo controle nas demais variáveis analisadas nas tarefas de FVO e FVS está de acordo com esse dado e com os resultados de estudos anteriores (Becker, Muller, Rodrigues, Villavicencio, & Salles, 2014; Tucha, Smely, & Lange, 1999), nos quais foi discutido que o local específico de lesão pode ter maior influência sobre o desempenho em FV do que o hemisfério atingido.

     Um estudo de meta-análise (Vigneau et al., 2011) demonstrou que o hemisfério cerebral direito tem menos influência sobre o desempenho em FV do que o hemisfério esquerdo. O desempenho prejudicado do grupo LHE no total de palavras evocadas, número de clusters e número de switches tanto em FVO quanto em FVS corrobora com essa hipótese. Estudos com pacientes com LHE têm demonstrado que o desempenho deficitário em FVS pode estar relacionado a lesões no córtex temporal esquerdo e em FVO com lesões frontais esquerdas (Baldo, Schwartz, Wilkins, & Dronkers, 2006; Baldo, Schwartz, Wilkins, & Dronkers, 2010; Troyer et al., 1998). Considerando o tamanho reduzido da amostra por grupo clínico, destaca-se que os resultados aqui apresentados devem ser interpretados com cautela. Conclui-se que a análise dos componentes subjacentes ao desempenho geral em tarefas de FV (clustering e switching) torna-se importante para melhor compreender os déficits cognitivos apresentados pelos pacientes e contribui com o planejamento de estratégias de reabilitação neuropsicológica após lesões cerebrovasculares. Sugere-se que estudos futuros realizem análises de série de casos (Schwartz & Dell, 2010), o que possibilitaria verificar a influência dos locais específicos de lesão de cada caso sobre o resultado geral do grupo clínico. 



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