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Boletim | Junho/2017

Matéria Principal

Impacto do uso de álcool no controle inibitório durante a adolescência

     O objetivo desta matéria é apresentar tópicos importantes sobre o uso de álcool na adolescência e seu impacto no controle inibitório, componente essencial das funções executivas. Torna-se necessário também discutir sobre uma das dúvidas mais frequentes quando se fala sobre o assunto: o adolescente com menor controle inibitório tende a beber mais e mais precocemente ou o adolescente que bebe álcool em maiores quantidades adquire prejuízos no controle inibitório?

     As duas coisas são verdadeiras e ainda estão sendo exploradas na literatura. Primeiramente será discutido sobre o adolescente com menor controle inibitório. Controle inibitório é um termo amplo que se refere à habilidade da flexibilidade de adaptar o comportamento quando deparado com conflito cognitivo, interferência ou competição (Yücel et al., 2012). Estudos sugerem que a região cerebral do córtex pré-frontal é fundamental para o controle de inibir, da atenção, do raciocínio e do comportamento (Aron, Fletcher, Bullmore, Sahakian, & Robbins, 2003; Crone, 2009) e essa área só se matura completamente no final da adolescência (Casey, Jones, & Hare, 2008).

     Por isso, a adolescência também é demarcada por comportamentos de risco, dentre eles, o uso de substâncias (Coutinho, Santos, Folmer, & Puntel, 2013). Então pode-se compreender que a falta da maturação completa do córtex pré-frontal pode ser causadora de uma falha na hora de acionar propriamente o controle de inibir, o que acarreta na realização do comportamento de beber antes da idade legal permitida. Um estudo longitudinal com uma amostra de 387 adolescentes observou que o controle inibitório baixo pode ser preditor do uso de álcool, no entanto, esse preditor foi válido apenas para alto consumo de bebidas alcóolicas e não para consumo baixo (Meisel, Colder, & Hawk, 2015).

     O que se observa em pesquisas nacionais (de Almeida et al., 2014; Willhel et al. 2015) e internacionais (Botvin & Griffin, 2007; Blakemore & Robbins, 2012) são resultados preocupantes com relação ao consumo de álcool na adolescência, pois nota-se alto consumo de bebidas alcóolicas nesta fase da vida. O comportamento de beber pode acarretar principalmente, em mais condutas de risco como acidentes, suicídio, violência e sexo desprotegido (Galduróz, Noto, Nappo, & Carlini, 2004).

     O que leva ao início da discussão da segunda parte da dúvida colocada acima. Sabe-se que o alcoolismo pode acarretar em prejuízos cognitivos incluindo déficits neuropsicológicos (Rigoni, Susin, Trentini, & Oliveira, 2012), déficits na aprendizagem, memória, capacidade viso-espacial, resoluções de problemas e alterações no córtex pré-frontal (Nassif & Rosa, 2003). Já quando se fala de adolescência, é difícil falar em alcoolismo, pois, na maioria das vezes, ainda não se pode diagnosticar o abuso dessa substância. No entanto, estudos mais recentes apresentam resultados sobre o binge drinking nessa fase da adolescência, que se caracteriza pelo comportamento de consumir grandes quantidades de álcool em um curto período de tempo (Parada et al., 2011).

     Um estudo que comparou adolescentes caracterizados como consumidores binge e adolescentes caracterizados como abstêmios observou diferença na performance de tarefas neuropsicológicas, no qual, o grupo abstêmio obteve melhor desempenho em tarefas de memória episódica, atenção concentrada, planejamento e memória de trabalho (Hartley, Elsabagh, & File, 2004). Corroborando esse achado, um estudo alemão observou deficiências específicas de resposta de inibição apenas no grupo de jovens que bebem muito em um curto espaço de tempo (binge drinking), enquanto na análise da resposta de inibição dos grupos que consumiam pouco álcool, não foram detectados déficits (Czapla et al., 2015).

     Apesar de serem publicados estudos que comparem adolescentes humanos que bebem álcool em excesso e os que não bebem, ainda é difícil afirmar a relação entre o padrão de consumo e os prejuízos em decorrência disso. Porém, estudos com modelos animais já conseguem demonstrar que o cérebro do adolescente é mais vulnerável aos efeitos do álcool do que o cérebro do adulto e podem ter prejuízos com o consumo excessivo principalmente nas áreas que demoram mais a se maturar, como o córtex pré- frontal (Crews, He, & Hodge, 2007). Por isso, torna-se importante a realização de estudos longitudinais, a fim de investigar quais são os possíveis déficits nas funções executivas, em particular no controle inibitório, que o uso de álcool pode acarretar na adolescência.

     Conclusão

    O período da adolescência é demarcado por comportamentos de risco, no qual há falhas no controle de inibir comportamentos, por isso, se observa com frequência o ato de experimentar bebidas alcóolicas. Porém, beber em excesso nessa fase da vida pode prejudicar ainda mais as funções executivas, observando mais especificamente ao controle de inibição. Logo, a ação de experimentar pode se dar devido à falta de controle (saudável e esperado para a idade), porém, o excesso dessa substância pode acarretar em problemas mais frequentes na inibição, inclusive na fase adulta. 



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